Jun 7

Estou cansado!
Ricardo Gondim

Cansei! Entendo que o mundo evangélico não admite que um pastor confesse o seu cansaço. Conheço as várias passagens da Bíblia que prometem restaurar os trôpegos. Compreendo que o profeta Isaías ensina que Deus restaura as forças do que não tem nenhum vigor. Também estou informado de que Jesus dá alívio para os cansados. Por isso, já me preparo para as censuras dos que se escandalizarem com a minha confissão e me considerarem um derrotista. Contudo, não consigo
dissimular: eu me acho exausto.

Não, não me afadiguei com Deus ou com minha vocação. Continuo entusiasmado pelo que faço; amo o meu Deus, bem como minha família e amigos. Permaneço esperançoso. Minha fadiga nasce de outras fontes.

Canso com o discurso repetitivo e absurdo dos que mercadejam a Palavra de Deus. Já não agüento mais que se usem versículos tirados do Antigo Testamento e que se aplicavam a Israel para vender ilusões aos que lotam as igrejas em busca de alívio. Essa possibilidade mágica de reverter uma realidade cruel me deixa arrasado porque sei que é uma propaganda enganosa. Cansei com os programas de rádio em que os pastores não anunciam mais os conteúdos do evangelho; gastam o tempo alardeando as virtudes de suas próprias instituições. Causa tédio tomar conhecimento das infinitas campanhas e correntes de oração; todas visando exclusivamente encher os seus templos. Considero os amuletos evangélicos horríveis. Cansei de ter de explicar que há uma diferença brutal entre a fé bíblica e as crendices supersticiosas.

Canso com a leitura simplista que algumas correntes evangélicas fazem da realidade. Sinto-me triste quando percebo que a injustiça social é vista como uma conspiração satânica, e não como fruto de uma construção social perversa. Não consideram os séculos de preconceitos nem que existe uma economia perversa privilegiando as elites há séculos. Não agüento mais cultos de amarrar demônios ou de desfazer as maldições que pairam sobre o Brasil e o mundo.

Canso com a repetição enfadonha das teologias sem criatividade nem riqueza poética. Sinto pena dos teólogos que se contentam em reproduzir o que outros escreveram há séculos. Presos às molduras de suas escolas teológicas, não conseguem admitir que haja outros ângulos de leitura das Escrituras. Convivem com uma teologia pronta. Não enxergam sua pobreza porque acreditam que basta aprofundarem um conhecimento “científico” da Bíblia e desvendarão os mistérios de Deus. A aridez fundamentalista exaure as minhas forças.

Canso com os estereótipos pentecostais. Como é doloroso observá-los:
sem uma visitação nova do Espírito Santo, buscam criar ambientes espirituais com gritos e manifestações emocionais. Não há nada mais desolador que um culto pentecostal com uma coreografia preservada, mas sem vitalidade espiritual. Cansei, inclusive, de ouvir piadas contadas pelos próprios pentecostais sobre os dons espirituais.

Cansei de ouvir relatos sobre evangelistas estrangeiros que vêm ao Brasil para soprar sobre as multidões. Fico abatido com eles porque sei que provocam que as pessoas “caiam sob o poder de Deus” para tirar fotografias ou gravar os acontecimentos e depois levantar fortunas em seus países de origem.

Canso com as perguntas que me fazem sobre a conduta cristã e o legalismo. Recebo todos os dias várias mensagens eletrônicas de gente me perguntando se pode beber vinho, usar “piercing”, fazer tatuagem, se tratar com acupuntura etc., etc. A lista é enorme e parece inexaurível. Canso com essa mentalidade pequena, que não sai das questiúnculas, que não concebe um exercício religioso mais nobre; que não pensa em grandes temas. Canso com gente que precisa de cabrestos, que não sabe ser livre e não consegue caminhar com princípios. Acho intolerável conviver com aqueles que se acomodam com uma existência sob o domínio da lei e não do amor.

Canso com os livros evangélicos traduzidos para o português. Não tanto pelas traduções mal feitas, tampouco pelos exemplos tirados do golfe ou do basebol, que nada têm a ver com a nossa realidade. Canso com os pacotes prontos e com o pragmatismo. Já não agüento mais livros com dez leis ou vinte e um passos para qualquer coisa. Não consigo entender como uma igreja tão vibrante como a brasileira precisa copiar os exemplos lá do norte, onde a abundância é tanta que os profetas denunciam o pecado da complacência entre os crentes. Cansei de ter de opinar se concordo ou não com um novo modelo de crescimento de igreja copiado e que vem sendo adotado no Brasil.

Canso com a falta de beleza artística dos evangélicos. Há pouco compareci a um show de música evangélica só para sair arrasado. A musicalidade era medíocre, a poesia sofrível e, pior, percebia-se o interesse comercial por trás do evento. Quão diferente do dia em que me sentei na Sala São Paulo para ouvir a música que Johann Sebastian Bach (1685-1750) compôs sobre os últimos capítulos do Evangelho de São João. Sob a batuta do maestro, subimos o Gólgota. A sala se encheu de um encanto mágico já nos primeiros acordes; fechei os olhos e me senti em um templo. O maestro era um sacerdote e nós, a platéia, uma assembléia de adoradores. Não consegui conter minhas lágrimas nos movimentos dos violinos, dos oboés e das trompas. Aquela beleza não era deste mundo. Envoltos em mistério, transcendíamos a mecânica da vida e nos transportávamos para onde Deus habita. Minhas lágrimas naquele momento também vinham com pesar pelo distanciamento estético da atual cultura evangélica, contente com tão pouca beleza.

Canso de explicar que nem todos os pastores são gananciosos e que as igrejas não existem para enriquecer sua liderança. Cansei de ter de dar satisfações todas as vezes que faço qualquer negócio em nome da igreja. Tenho de provar que nossa igreja não tem título protestado em cartório, que não é rica, e que vivemos com um orçamento apertado. Não há nada mais desgastante do que ser obrigado a explanar para parentes ou amigos não evangélicos que aquele último escândalo do jornal não representa a grande maioria dos pastores que vivem dignamente.

Canso com as vaidades religiosas. É fatigante observar os líderes que adoram cargos, posições e títulos. Desdenho os conchavos políticos que possibilitam eleições para os altos escalões denominacionais. Cansei com as vaidades acadêmicas e com os mestrados e doutorados que apenas enriquecem os currículos e geram uma soberba tola. Não suporto ouvir que mais um se auto-intitulou apóstolo.

Sei que estou cansado, entretanto, não permitirei que o meu cansaço me torne um cínico. Decidi lutar para não atrofiar o meu coração.

Por isso, opto por não participar de uma máquina religiosa que fabrica ícones. Não brigarei pelos primeiros lugares nas festas solenes patrocinadas por gente importante. Jamais oferecerei meu nome para compor a lista dos preletores de qualquer conferência. Abro mão de querer adornar meu nome com títulos de qualquer espécie. Não desejo ganhar aplausos de auditórios famosos.

Buscarei o convívio dos pequenos grupos, priorizarei fazer minhas refeições com os amigos mais queridos. Meu refúgio será ao lado de pessoas simples, pois quero aprender a valorizar os momentos despretensiosos da vida. Lerei mais poesia para entender a alma humana, mais romances para continuar sonhando e muita boa música para tornar a vida mais bonita. Desejo meditar outras vezes diante do pôr-do-sol para, em silêncio, agradecer a Deus por sua fidelidade.
Quero voltar a orar no secreto do meu quarto e a ler as Escrituras como uma carta de amor de meu Pai.

Pode ser que outros estejam tão cansados quanto eu. Se é o seu caso, convido-o então a mudar a sua agenda; romper com as estruturas religiosas que sugam suas energias; voltar ao primeiro amor. Jesus afirmou que não adianta ganhar o mundo inteiro e perder a alma. Ainda há tempo de salvar a nossa.

Soli Deo Gloria.

(Recebi esta carta por email. Se porventura tiver direitos de autor, solicitava que nos informassem…)

Out 20

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Longe de mim esteja gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. (Gl 6.14.)

Eles estavam vivendo para si mesmos; o eu, com suas esperanças, promessas e sonhos, ainda os tinha em suas mãos; mas o Senhor começou a responder às suas orações. Tinham pedido um coração contrito e tinham-se entregado a Deus para que tal coração lhes fosse dado, a qualquer preço; e Ele lhes mandou tristeza; tinham pedido para ser mansos, e lhes partiu o coração; tinham pedido para morrerem para o mundo, e Ele destruiu suas vivas esperanças; tinham pedido para serem feitos semelhantes a Ele, e os colocou na fornalha, sentando-Se junto deles “como refinador e purificador de prata”, até que pudessem reflectir a Sua imagem; tinham pedido para tomar a Sua cruz, e quando a estendeu a eles, ela lhes dilacerou as mãos.

Eles estavam pedindo sem saber o que pediam, mas Ele os pegou na palavra e lhes concedeu todas as suas petições. Estavam longe de pensar em segui-lO até tão longe, ou de chegar tão perto dEle. Veio sobre eles um temor, como a Jacob em Betel ou a Elifaz na noite das suas visões, ou aos apóstolos quando pensaram ver um fantasma e não sabiam que era Jesus. Sentiam-se quase como a pedir-Lhe que afastasse deles Sua presença solene.

Achavam mais fácil levar a cruz do que ficar suspensos sobre ela. Mas não podiam voltar atrás, pois tinham chegado perto demais da cruz invisível, e suas virtudes os haviam atingido profundamente. Ele está cumprindo para com eles a promessa: “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo” (Job12.32).

E agora chegou a vez de eles serem atraídos. Antes, tinham apenas ouvido falar do mistério, mas agora o sentem. Ele fixou neles Seu olhar de amor, como fez a Maria e a Pedro, e eles não têm outra escolha a não ser segui-lO!

Pouco a pouco, de tempos em tempos; por leves lampejos, o mistério de Sua cruz brilha sobre eles. Eles O contemplam exaltado, contemplam a glória que resplandece das feridas de Sua santa paixão; e à medida que olham, avançam e são transformados na Sua imagem, e Seu Nome brilha através de suas vidas, pois Ele habita neles.

Eles vivem a sós com Ele lá em cima, em inefável comunhão; prontos a não ter o que outros têm (e que eles poderiam ter tido), e a ser diferentes de todos, para que sejam só como Ele.

Assim, eles são, em todas as épocas, os que “seguem o Cordeiro por onde quer que vai”.

Tivessem eles escolhido por si mesmos ou seus amigos por eles, e teriam escolhido de outra forma. Teriam sido mais ilustres aqui, mas menos gloriosos no Reino de Deus. Teriam tido a porção de Loth, não a de Abraão. Se tivessem hesitado em alguma parte — se Deus tivesse retirado de sobre eles a mão deixando-os voltar atrás — o que não teriam perdido? Que detrimentos não haveria na ressurreição?

Mas Ele os conservou em pé, a despeito de si mesmos. Muitas vezes os seus pés bem que teriam escorregado. Na Sua misericórdia, Ele os conservou de pé. Agora, mesmo nesta vida, eles sabem que tudo o que Ele fez foi sempre bem feito. Foi bom sofrer aqui, para poderem reinar ali; suportar a cruz aqui em baixo, para usarem a coroa lá em cima; e para que neles e a respeito deles fosse feita não a sua própria vontade, mas a vontade dEle. — Anónimo

Out 6

Velhice

01 Agosto de 2009
“Pai, se queres. passa de mim este cálice; todavia, não se faça a minha vontade, mas a Tua”
(Lucas 22.42)

À medida que envelhecemos, as doenças se tornam mais comuns e nossa saúde fica prejudicada. Porém muitas vezes, o problema maior está nas mudanças que ocorrem ao nosso redor.
O ancião se vê obrigado a deixar sua casa e se mudar para um abrigo de idosos ou para a casa de um filho, se é que este pode ou quer recebê-lo. Às vezes a saúde piora a tal ponto que o ancião tem que ser socorrido ou internado em um hospital geriátrico. Alguns cristãos idosos têm grandes dificuldades para resolver esse problema. Demoram a admitir a situação ou adiam a decisão por ser dolorosa. Eles se recusam a fazer qualquer mudança e sofrem com a ideia de se submeter quando as coisas não acontecem da maneira que planejaram.
Querido amigo idoso, compreendo que tudo isso lhe seja bastante penoso. Porém, olhe para o Senhor Jesus! Pense nEle, em Sua vida, e se deixe consolar pela atitude que o Mestre teve. Nosso Senhor não teve uma vida fácil. Quantas situações dolorosas enfrentou! No entanto, jamais Se queixou nem fez Sua própria vontade. Veio para fazer a  vontade de Deus a cada passo. ” Não se faça a minha vontade, mas a Tua” foi o lema de Sua vida até a cruz. Quanto podemos aprender com Ele! O Senhor passou por circunstâncias difíceis, piores que as de qualquer outro ser humano, e nunca reclamou! Além disso, não esqueçamos a consoladora promessa: “E até à velhice eu serei o mesmo e ainda até às cãs eu vos trarei; eu o fiz, e eu vos levarei, e eu vos trarei e vos guardarei” (Isaías 46.4)

Cópia integral da meditação de 01 de Agosto, das meditações anuais “Boa Semente” de 2009